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07 Setembro 2011

PANAVIA TORNADO IDS. Um carrasco de baixa altitude.

ORIGENS Por Sergio Santana
Ironicamente, a aeronave atualmente conhecida como Tornado IDS (iniciais para Interdição/Ataque) nasceu com o fim de outra, o English Electric TSR.2 de ataque tático/reconhecimento, que devia substituir o Canberra (da mesma companhia), mas foi cancelado em abril de 1965 devido aos altos custos de desenvolvimento. Para suprir imediatamente a necessidade de uma aeronave de ataque, cogitou-se a aquisição de alguns General Dynamics F-111 “Aardvark” e vários exemplares da aeronave AFVG, um projeto de asas móveis então conduzido pela British Aircraft Corporation (mais tarde British Aerospace, BAe) e a francesa Dassault. Contudo, a França deixou o AFVG em junho de 1967 e a aquisição dos “Vark” foi cancelada seis meses depois. O ano seguinte presenciou a formação do “Grupo de Substituição do F-104”, integrado pela então Alemanha Ocidental, Bélgica, Canadá, Holanda e Itália que procuravam desenvolver/adquirir um vetor comum em substituição aos Lockheed Starfighter que operavam, mas em maio de 1969 o grupo foi reduzido, por razões políticas e orçamentárias, às participações alemã e italiana, acrescidas do remanescente interesse britânico, que continuou aperfeiçoando o que seria o AFVG. As três nações estabeleceram necessidades operacionais similares: interdição em campo de batalha; apoio aéreo aproximado; defesa aérea e reconhecimento (em uma profundidade de até 926 km em território hostil). As missões de ataque deveriam ser executadas a altitudes entre 30-60 metros voando a 1.101km/h por uma distância de 277 km na fase de penetração, com quatro bombas de 454kg em um raio máximo entre 740-926km.
Acima: O protótipo revolucionário (para a época) do avião de ataque supersônico English Eléctric TSR-2 que deveria substituir o bombardeiro Camberra. Sua sofisticação tornou o programa caro demais, o que acabou levando ao cancelamento em abril de 1965.
Tal abrangência de requisitos só poderia ser satisfeita por uma aeronave biplace (embora houvessem inicialmente proposta de um modelo para um tripulante) e de geometria variável. A BAC/BAe já havia desenvolvido um modelo em Teflon – mais resistente e leve que asas em metal. Adicionalmente, as missões à baixa altura exigiam um tipo de propulsor então inexistente, capaz de operar a altas temperaturas e pressões, mas com baixo consumo, sendo estabelecida uma competição entre as inglesas Bristol Siddeley e Rolls Royce, que em setembro de 1969 resultou na escolha da última, com o seu RB199 sendo desenvolvido a partir do mês seguinte.
Em julho de 1970 ocorreu o lançamento do projeto, oficialmente designado MRCA-75 (sigla para Aeronave de Combate Multifuncional para 1975, o ano em que devia estar operacional), do qual 385 exemplares foram inicialmente encomendados para a Real Força Aérea britânica (RAF), 212 para a Força Aérea alemã (Luftwaffe) e 100 outros para a Aeronáutica Militar italiana (AMI). Logo após, a Marinha alemã (Marineflieger) também decidiu “aposentar” seus F-104, adquirindo 112 dos novos aviões para reequipar os esquadrões MFG-1 e MFG-2.
Os custos de produção foram divididos de modo igual entre Alemanha e Reino Unido (42.5% para cada) e Itália (com 15%), assim formando a Panavia Aircraft. O primeiro vôo ocorreu em 14 de agosto de 1974, com o protótipo 01 (D-9591) tendo decolado de Manching e tripulado pelo chefe dos pilotos de teste da BAC, Paul Millett e o seu correspondente alemão Nils Meister. A aeronave atingiu 3.048 metros. Os motores foram limitados a oferecer velocidade máxima de 1.909km/h e no curso do desenvolvimento, os protótipos “P08” e “P04” e suas tripulações foram perdidos, em junho de 1979 e maio de 1980, respectivamente.
Acima: O Tornado se mostrou uma aeronave fantástica pela sua excelente capacidade de voo em altíssima velocidade e a baixa altitude, o que lhe dava a possibilidade de se infiltrar em território hostil sem ser detectado, quando seguindo o contorno do terreno.

DETALHES ESTRUTURAIS.
A italiana AIT foi encarregada de desenvolver e produzir as asas, pilones, parte do sistema de combustível, auxílios defensivos fabricados no país, radar-altímetro e o sistema de referência de proa/altitude padrão. À germânica MBB foi atribuída a fuselagem central, os aviônicos, o sistema de controle de vôo, trens de pouso, o sistema de monitoramento e checagem de bordo, o sistema de comunicações, a integração navegação/radar, o computador principal, o RWR, a APU e a caixa de transmissão. Por fim, à BAe coube às fuselagens dianteira/traseira, deriva/estabilizadores horizontais/vertical, outros pilones, propulsão, sistemas hidráulicos/eletrônicos e de escape da tripulação, instrumentação de dados aéreos, displays, o HUD e os sistemas de disparo de armas/reconhecimento/navegação interna.
Estruturalmente, o Tornado é composto por ligas leves (71%), titânio (18%), aço (6%) e outros materiais (5%). Seu sistema de controle é um FBW de tripla redundância, substituído por um sistema mecânico de reserva, na hipótese de falhas dos três níveis. Dentre os componentes do FBW destacam-se os sistemas limitadores de incidência/prevenção de parafuso e de aumento de estabilidade de comando, que impedem a pilotagem da aeronave em regimes de vôo arriscados. Uma particularidade do Tornado é ser equipado com um gravador de dados de colisão cujo localizador emite um sinal durante dez dias, se submerso à profundidade mínima de 7.6 metros, auxiliando na localização do dispositivo e na investigação de acidentes. Em termos aerodinâmicos, as asas móveis representam os elementos mais significativos, ajustados manualmente entre 25 e 68 graus de enflechamento, conforme a fase do vôo e a velocidade desejada, além de serem complementadas pelos estabilizadores horizontais, denominados tailerons, por agirem como ailerons (ausentes nas asas do Tornado), em movimentos laterais, muito utilizados em vôos rápidos sobre terreno irregular a baixa altitude. A aeronave leva 4.289 kg de combustível em 16 tanques, incluindo um na deriva.
Acima: Este Tornado IDS mostra toda sua fúria em voo rasante e alta velocidade. O Tornado é o mais rápido avião em baixa altitude da história, podendo chegar a 1482 km/h.

VERSÕES.
GR.1: Denominação britânica da versão básica da AMI, Luftwaffe, Marineflieger e RAF, caracterizada por radar de seguimento de terreno Texas Instruments, radar de navegação Doppler 72 e navegação inercial BAe Systems FIN 1010. Oitenta e cinco IDS da Força Aérea alemã estão sendo submetidas à modernização “ASSTA”, iniciada em 2000 e dividida em três fases, nas quais será mudado o computador de armamento (para operar novas armas/designadores de alvos), mas acrescentados GPS, INS a laser, novos displays, sistemas defensivos e de navegação, além de enlace de dados Link 16. Por sua vez, 33 dos IDS italianos estão concluindo um programa de atualização de meia-vida, com GPS Litef, novos rádios e radar-altímetro, além de TACAN Thales e a capacidade de disparar armas guiadas a laser/GPS e mísseis Storm Shadow. O usuário final do IDS/GR.1 é a Real Força Aérea saudita (AQJS), que em setembro de 1985 adquiriu 48 exemplares, complementados por mais 48 em julho de 1988, tendo sido entregues com armas anti-pista JP-233, mísseis anti-navio Sea Eagle e anti-radar ALARM. Até 84 dos seus IDS estão sendo submetidos ao programa TSP, capacitando-os a usar casulos de pontaria Damocles, bombas Paveway II/III/IV, mísseis Brimstone e Storm Shadow.
GR.1A: Trinta exemplares para a RAF, com sistema de reconhecimento infravermelho TIRRS no lugar dos canhões. Doze adicionais para a AQJS.
GR.1B: designação de 26 IDS adaptados para utilizar o já mencionado Sea Eagle.
GR.1T: variante de duplo comando, para conversão de tripulações.
GR.4: adaptação de 142 GR.1 para missões à altitude média, incluindo dispositivo FLIR, um HUD maior, displays TARDIS (para uso com NVG), GPS, navegação inercial laser e alerta de proximidade com o solo, além da capacidade de utilizar os Storm Shadow e Brimstone. Entregues entre 1996 e 2003. Em 2008 foi iniciado o programa CUS(P), que dará ao GR.4 um sistema atualizado de comunicações seguras e um enlace de dados tático. Substituiu o GR.1B
GR.4A: Vinte e cinco exemplares de reconhecimento nos quais o TIRRS foi trocado por casulos externos DJRP e Raptor.
Acima: Este Tornado IDS GR-4 está armado com 4 mísseis anti-radar Alarm e 12 mísseis ar superfície Brimstone. Este ultimo foi usado com extremo sucesso nas operações de combate sobre a Líbia.

EM SERVIÇO
O Esquadrão 9 da RAF, baseado em Honington, foi a primeira unidade operacional a receber o IDS, em julho de 1982, estando capacitada para ataques nucleares com bombas WE177. Ainda naquele ano os primeiros exemplares da Luftwaffe entraram em serviço, com a unidade de conversão TTTE, baseada em RAF Cottesmore, além dos IDS do Esquadrão MFG 1 da MarineFlieger em Jagel (desfeito em 1993). O ano seguinte presenciou a ativação dos IDS italianos – no 154º Stormo em Ghedi – e dos exemplares do esquadrão MFG 2 em Eggbeck (desativado em 2005). Por sua vez, no ano de 1984 o IDS provaria a sua capacidade, ao obter as primeiras colocações nas competições de bombardeio da USAF.
As operações “Escudo do Deserto” e “Tempestade do Deserto” entre o fim de 1990 e o início de 1991, como uma reação à invasão do Kuwait por tropas iraquianas, foi o batismo de fogo do Tornado IDS. Tomaram parte 24 aeronaves GR.1dos esquadrões 9, 14,15,16, 20 e 31, complementadas por oito IDS italianos dos 6º, 36º e 50º Gruppos, e algumas aeronaves do esquadrão 7 da AQJS. No curso das ações, os Tornado foram empregados principalmente em missões anti-pista utilizando o já mencionado JP223 e bombas de fragmentação BL755, que os obrigava a vôos extremamente baixos, ao alcance da artilharia anti-aérea, resultando na perda de 6 IDS: quatro da RAF, um da AMI e outro da AQJS. Tal desempenho levou ao desenvolvimento da versão GR.4.
Os GR.4, aliás, tem sido utilizados compondo a “Tornado GR Force” (TGRF), como parte da “Operação Herrick”, a atuação britânica contra os talebãs no Afeganistão. Em muitas dessas missões duas das seis aeronaves em rodízio da TGRF voam a 1.110km/h, trinta metros acima dos rebeldes. Se estes reagem, podem ser neutralizados por armas Brimstone, Paveway IV e disparos de canhão 27mm. Outra recente atuação do tipo foi contra insurgentes iemenitas, sendo utilizados os IDS da AQJS.
Atualmente, a RAF opera seus Tornados nos esquadrões 2, 9, e 31 na base aérea de Marham e 12, 15 e 617 em Lossiemouth; a Luftwaffe nos esquadrões JbG 3 2 em Lechfeld e JbG 33 em Büchel; A AMI com os 102º, 154º e 156º Gruppos, baseados em Ghedi e a AQJS nos esquadrões 7, 75 e 83 baseados em Dhahran.
Acima: O painel do piloto do Tornado IDS é recheado de mostradores analógicos, deixando evidente a idade do projeto.

FICHA TÉCNICA (GR-4)
Velocidade de cruzeiro: Mach 0,90.
Velocidade máxima: mach 2.
Razão de subida: 4602 m/min.
Peso/Potência: 0,80 (apenas com combustível interno).
Fator de carga: 7,5 Gs
Taxa de giro: 11 º/s (estimado).
Razão de rolamento: 200º/s (estimado).
Raio de ação/ alcance: 1390 km (Hi lo lo Hi)/ 3900 km.
Alcance do radar: Radar Texas instruments GMR.
Empuxo: 2 motores Turbo Union RB-199-34R MK-103 com 7680 kg de empuxo máximo.
DIMENSÕES
Comprimento: 16,72 m.
Envergadura: 13,91 m (asas abertas).
Altura: 5,95 m.
Peso: 13890 kg (vazio).
ARMAMENTO
Ar Ar: Míssil AIM-9 Sidewinder, IRIS-T, AIM-132 ASRAAM.
Ar Terra: Mísseis Brimstone; Mísseis de cruzeiro Storm Shadow e Taurus KEPD 350. Mísseis anti-radar Alarm e AGM-88 HARM; Mísseis antinavio Sea Eagle e AS-34 Kormoran; Bombas guiadas por laser Paveway II, III, IV; Bombas de fragmentação BL-755, Bombas planadoras guiadas por satélite (GPS) HOSBO/ HOPE antibunker e JDAM; Dispensadores de submunições JP-233 e MW-1. Bombas nucleares táticas B-61 e WE-177.
Interno: 2 canhões Mauser BK-27 de 27 mm com 180 munições cada um.
Acima: Um Tornado IDS em três vistas.

Acima: Além dos países europeus, a rica força aérea da Arabia Saudita adquiriu 87 Tornados IDS que estão sendo modernizados atualmente.

ABAIXO PODEMOS VER O VÍDEO COM ALGUMAS CENAS DO TORNADO IDS ALEMÃO.
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10 comentários:

Luiz Eduardo Silva Parreira disse...

Sobre o painel, lembro-me do "Guia de Armas de Guerra", do final da década de 80, quando numa das fotos do Tornado, exclamava que a fera da PANAVIA possuía o cockpit mais moderno dos aviões daquela geração ... o tempo passa! Mas é um avião fantástico!

ZERO II disse...

Carlão, realmente, só esse blog pra mostrar de forma bem simples o quanto essa aeronave é fantástica! Ótima postagem.

Queria sugerir duas matérias. Uma sobre a arma BRIMSTONE, é verdade que estamos ajudando no desenvolvimento dela? E também sobre o concorrente do Raptor, o YF-23, com seu formato incomum.

Valeu, Carlão!

Carlos E. Di Santis Junior disse...

Olá Zero II. Obrigado!
Já há, à algum tempo, uma matéria sobre o YF-23 no blog Campo de Batalha Aérea. O link para ela é: http://aircombatcb.blogspot.com/2006/06/mc-donnell-douglas-northrop-yf-23.html
Agradeço, também, a sugestão para o artigo sobre o míssil Brimstone, porém desconheço a informação de que o Brasil esteja envolvido no desenvolvimento desta arma.
Abraços

Rafael disse...

Olá Carlos! Qual seria as chances de F-5 M da FAB contra um TORNADO IDS, os nossos AMX são da mesma categoria do TORNADO? São mas eficientes por ser de fabricação mas recente?.
Le sobre um veiculo blindado que leva o nome Gladiador soube apenas que é fabricado sobre o chassi da AGRALE. Você tem dados desse veiculo? ,quem o fabrica? ,abraços.

Carlos E. Di Santis Junior disse...

Olá Rafael.
Os F-5M da FAb são muito ageis e por isso podem ter sucesso contra o Tornado, se for bem pilotado e estiver armado com armamento eficaz.
Muitas verzes, em treinamentos, caças F-5E como os nossos, derrubaram F-15, F-16 e F-18, aeronaves mais ágeis e potentes que um Tornado IDS. A competência do piloto pesa muito ainda.
Sobre o Gladiador, eu o conheço pouco. Trata-se de um novo produto nacional da Inbrafiltro, empresa especializada em blindagens. O veículo segura tiros diretos de fuzis até 7,62X51 mm e tem preparação para operar em ambiente químico, biológico e nuclear.
me parece um bom blindado leve de ligação....
Abraços

Rafael disse...

Olá Carlos!
Obrigado pela resposta, ainda sobre o F-5 da FAB li sertã vez não me lembro se foi nesse BLOG ou em outro que esses que passaram pela modernização são os F-5 mas modernos do mundo, você poderia esclarecer essa informação, abraços.

Carlos E. Di Santis Junior disse...

Olá Rafael. Realmente nossos F-5M são os mais modernos e atividade no mundo, seguidos de perto pelo F-5E Tiger III chilenos. Mas cá entre nós.... isso não ajuda muito. precisamos de um caça, na pior das hipóteses, do nível do F-16.
Abraços

GUILHERME USMC disse...

Ola muito boa a matéria sobre o Tornado mas ou gostaria de dar uma dica sobre outra matéria, sobre o F-111 aardvark, já ultrapassado mas que por um tempo foi o melhor avião de ataque do mundo. braços.

GUILHERME USMC disse...

Ola muito boa a matéria sobre o Tornado, mas ou gostaria de dar uma dica sobre outra matéria, sobre o F-111 aardvark, já ultrapassado mas que por um tempo foi o melhor avião de ataque do mundo. braços.

Carlos E. Di Santis Junior disse...

Olá Guilherme. Obrigado! Vou pesar na possibilidade de uma matéria sobre o venerável F-111.
Abraços